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Stablecoins: por que elas estão no centro das novas regras financeiras?

O dinheiro digital que tenta manter o valor do dólar

Data de atualização: 14 de setembro de 2026
Leitura estimada: 10 minutos



As stablecoins começaram como uma ferramenta usada principalmente por traders de criptomoedas. Hoje, elas estão sendo discutidas por governos, bancos centrais, empresas de tecnologia, processadores de pagamentos e grandes instituições financeiras.



A razão é simples: uma stablecoin tenta combinar duas características que normalmente não aparecem juntas. Ela utiliza redes de criptoativos, que funcionam todos os dias e atravessam fronteiras, mas busca manter um valor relativamente estável em relação a uma moeda, geralmente o dólar.



Esse crescimento chamou a atenção dos reguladores. Nos Estados Unidos, o Tesouro publicou uma proposta para implementar o GENIUS Act, uma lei voltada às chamadas payment stablecoins, ou stablecoins de pagamento. O Federal Reserve também publicou uma análise sobre o possível impacto desses ativos nos pagamentos internacionais e no sistema bancário.



O resultado é uma mudança importante de perspectiva. Stablecoins já não são discutidas apenas como uma forma de “ficar dentro do mercado cripto”. Elas passaram a ser tratadas como uma possível infraestrutura para pagamentos digitais.



Mas isso não significa que sejam equivalentes a dinheiro depositado em banco, nem que estejam livres de riscos. A palavra “estável” descreve um objetivo. Não é uma garantia absoluta.



Resumo: stablecoins são criptoativos que tentam manter um valor estável, geralmente em relação ao dólar. Seu crescimento pode tornar pagamentos internacionais mais rápidos e baratos, mas também cria riscos de reservas, liquidez, governança, regulação e proteção ao usuário.



O que é uma stablecoin?

Uma stablecoin é um token digital criado para acompanhar o valor de outro ativo. O caso mais comum é uma stablecoin que tenta valer aproximadamente US$ 1.



Na prática, o usuário compra ou recebe o token, que pode ser transferido em uma rede blockchain. A expectativa é que ele continue valendo aproximadamente um dólar, mesmo quando Bitcoin e outras criptomoedas estão subindo ou caindo bastante.



O funcionamento depende do modelo utilizado. Existem três categorias gerais.



Modelo

Como tenta manter o valor

Principais riscos

Lastreada em moeda ou reservas

O emissor mantém reservas para sustentar resgates

Qualidade das reservas, auditoria, liquidez e confiança no emissor

Lastreada em outros criptoativos

O sistema mantém garantias em criptomoedas

Queda das garantias, liquidações e complexidade do mecanismo

Algorítmica

Regras automáticas tentam equilibrar oferta e demanda

Perda de confiança, falha do mecanismo e espiral de desvalorização

As stablecoins lastreadas em reservas costumam ser as mais associadas à ideia de uma moeda digital estável. Mesmo assim, o usuário precisa entender o que existe por trás do token.



Uma stablecoin não se sustenta apenas porque seu código afirma que ela vale um dólar. A estabilidade depende de uma combinação de reservas, regras de emissão e resgate, liquidez, supervisão, tecnologia e confiança dos participantes.



O glossário da SEC define stablecoin como um criptoativo que busca manter valor estável em relação a uma moeda ou outro ativo 1. A palavra importante é “busca”. O objetivo de estabilidade não elimina a possibilidade de o token perder a paridade.



Por que stablecoins podem ser úteis?

Transferências internacionais potencialmente mais simples

O sistema tradicional de pagamentos internacionais costuma envolver bancos correspondentes. Nesse modelo, instituições financeiras mantêm relações entre si para movimentar dinheiro entre países e moedas diferentes.



Esse sistema é importante, mas pode ser caro, lento e difícil de acompanhar. Uma transferência internacional pode passar por vários intermediários antes de chegar ao destinatário.



Stablecoins podem reduzir parte dessa dependência. Um token pode ser transferido diretamente entre carteiras em uma rede blockchain, sem precisar aguardar o horário de funcionamento de todos os intermediários tradicionais.



O Federal Reserve observa que stablecoins de pagamento podem reduzir custos ao diminuir o papel do sistema de bancos correspondentes. A instituição também alerta que grandes bancos podem continuar importantes por causa de sua escala, de seus estoques em diferentes moedas e de sua capacidade de cumprir exigências regulatórias em vários países 2.



Portanto, a promessa não é necessariamente eliminar os bancos. É possível que stablecoins aumentem a concorrência e pressionem os intermediários tradicionais a melhorar seus serviços.



Funcionamento contínuo

Redes blockchain funcionam, em geral, sem depender de um expediente bancário convencional. Isso pode ser útil para empresas que operam em diferentes fusos horários e para pessoas que precisam movimentar recursos fora do horário comercial.



Essa característica não significa que todo saque ou conversão ocorrerá imediatamente. O usuário ainda pode depender de uma corretora, de um banco, de verificações de identidade e da liquidez disponível no mercado.



A rede pode funcionar 24 horas por dia, mas o serviço completo envolve mais do que a rede.



Acesso a dólares digitais

Em países com inflação elevada, controles de capital ou moeda local instável, uma stablecoin atrelada ao dólar pode ser vista como uma forma de acessar exposição digital à moeda americana.



Isso não transforma automaticamente a stablecoin em uma conta bancária em dólar. O usuário pode enfrentar restrições legais, riscos cambiais, custos de conversão e problemas para resgatar o token por dinheiro tradicional.



A diferença entre possuir uma stablecoin e possuir dólares em uma conta bancária é fundamental. São instrumentos diferentes, sujeitos a regras e proteções diferentes.



Uso dentro do mercado cripto

Stablecoins também funcionam como unidade de conta e meio de troca dentro de exchanges, protocolos de finanças descentralizadas e outros serviços digitais.



Um investidor pode vender Bitcoin e permanecer temporariamente em uma stablecoin sem converter imediatamente o saldo para uma moeda tradicional. Esse uso explica parte de sua importância no mercado cripto, mas também amplia o risco de contágio quando um emissor enfrenta problemas.



O que está acontecendo nos Estados Unidos?

O GENIUS Act e as stablecoins de pagamento

O GENIUS Act criou uma estrutura regulatória para atividades relacionadas às payment stablecoins. O Tesouro americano publicou uma proposta para explicar como algumas partes da lei deverão ser aplicadas 3.



A proposta aborda dois pontos centrais:



  1. Quando um emissor precisa de uma licença para emitir uma stablecoin de pagamento nos Estados Unidos.

  2. Em que condições uma plataforma pode oferecer ou vender uma stablecoin emitida no exterior a usuários nos Estados Unidos.



Segundo o Tesouro, a data esperada para a entrada em vigor geral da lei é 18 de janeiro de 2027. A proposta também menciona 18 de julho de 2028 como data relacionada a restrições adicionais sobre a oferta e a venda de stablecoins de pagamento nos Estados Unidos.



Essas datas são importantes, mas não devem ser lidas como se todas as regras já estivessem completamente detalhadas. A proposta ainda estava sujeita a comentários públicos, e regulamentos podem ser modificados antes da versão final.



O Federal Register descreve a proposta como um conjunto de regras sobre emissão, oferta e venda de stablecoins de pagamento 4. O Office of the Comptroller of the Currency também explica que o GENIUS Act estabeleceu uma estrutura federal para essas atividades 5.



O que a proposta pode mudar?

A lógica geral é aproximar a emissão de stablecoins de uma atividade financeira supervisionada. Em vez de qualquer empresa criar um token atrelado ao dólar e apresentá-lo como dinheiro digital, o emissor precisaria cumprir requisitos definidos pelo regulador aplicável.



Isso pode trazer benefícios, como maior transparência, regras de reservas e padrões mínimos para resgate. Também pode aumentar custos de operação e dificultar a entrada de projetos pequenos.



A regulamentação não elimina o risco. Ela muda quem pode operar, quais informações precisam ser divulgadas e quais autoridades podem fiscalizar a atividade.



As stablecoins já são um mercado grande?

Sim. Painéis de dados como CoinGecko e DeFiLlama indicavam, em consultas realizadas em setembro de 2026, uma capitalização total do mercado de stablecoins na ordem de centenas de bilhões de dólares 6 7.



Esse número muda diariamente. Por isso, um artigo responsável precisa informar a data e o horário da consulta, em vez de apresentar a capitalização como um valor permanente.



A capitalização de mercado também não responde a todas as perguntas importantes. É necessário observar:



  • Quantos tokens estão em circulação.

  • Quais ativos compõem as reservas.

  • Quem pode criar e resgatar os tokens.

  • Em quais redes a stablecoin funciona.

  • Qual é a liquidez disponível.

  • Como o emissor divulga informações.

  • Se o token já manteve sua paridade em momentos de estresse.



Uma stablecoin grande pode ter mais liquidez, mas tamanho não é sinônimo de segurança absoluta. Uma stablecoin pequena pode ter tecnologia interessante, mas enfrentar dificuldades para processar resgates em momentos de pressão.



Quais são os principais riscos?

Perda da paridade

A primeira preocupação é o chamado depeg, termo usado quando uma stablecoin deixa de acompanhar o valor de referência.



Uma stablecoin que deveria valer um dólar pode ser negociada a US$ 0,98, US$ 0,90 ou menos. A perda pode ser temporária ou permanente.



Isso pode acontecer quando os usuários tentam resgatar muitos tokens ao mesmo tempo, quando surgem dúvidas sobre as reservas ou quando a liquidez desaparece do mercado.



Risco das reservas

Stablecoins lastreadas em reservas dependem da qualidade e da disponibilidade desses ativos. Não basta afirmar que existe “lastro”. É preciso saber:



  • Onde as reservas estão custodiadas.

  • Qual é a composição delas.

  • Se podem ser vendidas rapidamente.

  • Quem verifica os números.

  • Quais são os direitos do detentor do token.

  • Como funciona o processo de resgate.



Reservas investidas em ativos de maior risco podem gerar perdas justamente quando muitos usuários tentam sacar seus recursos.



Risco do emissor

O usuário pode estar confiando em uma empresa centralizada para emitir tokens, manter reservas, processar resgates e cumprir regras.



Se essa empresa falhar, for hackeada, sofrer uma intervenção ou tiver problemas jurídicos, a rede blockchain não resolverá necessariamente o problema. A blockchain pode registrar corretamente que o usuário possui tokens. Ela não garante que o emissor conseguirá convertê-los em dólares.



Risco de custódia e fraude

Mesmo que o emissor seja sólido, o usuário pode perder acesso por causa de uma carteira mal protegida, uma senha roubada, um golpe ou uma transferência para o endereço errado.



Transações em blockchain geralmente não podem ser canceladas com a mesma facilidade de uma transferência bancária. O uso de uma stablecoin exige atenção tanto ao emissor quanto à carteira, à rede e à plataforma utilizada.



Risco regulatório

Uma mudança de regra pode limitar onde uma stablecoin pode ser oferecida, quem pode operar com ela e como os resgates devem ocorrer.



O fato de um token estar disponível em uma plataforma internacional não significa que ele seja permitido ou protegido da mesma forma em todos os países.



E o Brasil?

O cenário brasileiro precisa ser analisado separadamente do cenário americano. Uma lei dos Estados Unidos não se aplica automaticamente ao Brasil.



O Banco Central vem estruturando a regulamentação e a supervisão dos prestadores de serviços de ativos virtuais no país. Em fevereiro de 2026, a instituição apresentou informações sobre ativos virtuais, criptoativos e suas ações regulatórias 8.



O Banco Central também publicou atos normativos relacionados à prestação de serviços de ativos virtuais com base na Lei nº 14.478/2022 9.



Para o leitor brasileiro, a pergunta prática não deve ser apenas “qual é a regra dos Estados Unidos?”. Também é necessário verificar:



  • Qual empresa oferece o serviço no Brasil.

  • Se a atividade está sujeita à supervisão de uma autoridade brasileira.

  • Como ocorre a conversão entre reais e stablecoins.

  • Quais regras cambiais e tributárias podem se aplicar.

  • O que acontece se a plataforma interromper saques.

  • Em qual país o emissor está registrado.



Regulação não é sinônimo de garantia de rentabilidade, nem significa que o usuário nunca terá prejuízo. Ela estabelece deveres e limites para determinados participantes.



Stablecoin é melhor do que dinheiro comum?

Não existe uma resposta universal. Depende da finalidade.



Para uma transferência internacional, uma stablecoin pode oferecer velocidade e acesso contínuo. Para guardar uma reserva de emergência, o usuário precisa considerar a proteção oferecida por uma instituição financeira tradicional, a liquidez e a segurança jurídica.



Para operar dentro de uma exchange, stablecoins podem ser práticas. Para pagar uma conta no comércio local, a aceitação, a conversão e as regras aplicáveis podem tornar o uso menos simples.



A tabela abaixo resume a comparação sem transformar nenhum instrumento em solução universal.



Característica

Stablecoin

Dinheiro em conta bancária

Operação

Token em uma rede blockchain

Registro no sistema bancário

Acesso

Pode funcionar 24 horas, dependendo do serviço

Depende do banco e dos canais disponíveis

Conversão

Depende do emissor, exchange ou mercado

Geralmente feita pelo próprio banco

Proteção

Depende do emissor, da jurisdição e do produto

Depende das regras bancárias e garantias aplicáveis

Riscos principais

Perda de paridade, custódia, emissor e regulação

Risco bancário, bloqueios, custos e regras locais

Privacidade

Pode variar conforme rede e plataforma

Normalmente vinculada à identificação bancária

O ponto central é não tratar uma stablecoin como uma versão automaticamente superior do dinheiro tradicional. Ela é uma forma diferente de representar valor e movimentá-lo.



Como avaliar uma stablecoin sem ser especialista?

Antes de usar uma stablecoin, o leitor pode fazer perguntas básicas.



1. O que ela tenta acompanhar?

É o dólar, o euro, outra moeda ou um conjunto de ativos? Quanto mais complexa for a referência, mais difícil será entender o comportamento do token.



2. Como funciona o lastro?

Procure informações sobre reservas, custódia, relatórios, auditorias ou atestações. Desconfie de explicações vagas.



3. Quem emite o token?

Identifique a empresa, a jurisdição, o histórico e os canais oficiais de comunicação. “Descentralizada” pode significar coisas diferentes em projetos diferentes.



4. Como ocorre o resgate?

Pergunte quem pode resgatar, em qual moeda, com quais taxas e em quanto tempo. Um token pode ser negociado no mercado sem oferecer a todos os usuários um resgate direto com o emissor.



5. Qual rede deve ser utilizada?

Enviar um token pela rede errada pode causar perda de fundos. Taxas, velocidade e compatibilidade variam entre redes.



6. Quais são as regras no seu país?

A disponibilidade em um aplicativo não comprova que o produto tenha a mesma proteção de uma conta bancária ou de um valor mobiliário registrado.



O que acompanhar nos próximos meses?

O tema das stablecoins deve continuar evoluindo em pelo menos quatro frentes.



Primeiro, será importante acompanhar a versão final das regras americanas para emissão, oferta e venda de stablecoins de pagamento.



Segundo, os mercados observarão se a regulamentação aumenta a participação de bancos e empresas tradicionais ou se cria barreiras que favorecem apenas os emissores maiores.



Terceiro, continuará a discussão sobre pagamentos internacionais. O Federal Reserve aponta que stablecoins podem pressionar o modelo de bancos correspondentes, mas também reconhece que instituições tradicionais podem permanecer essenciais 2.



Quarto, o Brasil continuará definindo como prestadores de serviços de ativos virtuais serão enquadrados e supervisionados. Para leitores brasileiros, esse ponto pode ser mais importante do que acompanhar cada proposta americana.



Conclusão

Stablecoins não são simplesmente “criptomoedas que não caem”. Elas são ativos digitais que tentam manter estabilidade em relação a uma referência, geralmente o dólar.



Seu crescimento é relevante porque pode transformar a maneira como empresas e pessoas movimentam valores entre países. A possibilidade de pagamentos contínuos, liquidação mais rápida e menor dependência de intermediários explica por que o tema entrou na agenda de bancos centrais e governos.



Ao mesmo tempo, stablecoins continuam dependendo de emissores, reservas, tecnologia, liquidez e regras. A regulamentação pode aumentar a transparência, mas não elimina todos os riscos.



A melhor forma de acompanhar o assunto é separar três perguntas:



  1. O que o token promete fazer?

  2. Como ele tenta cumprir essa promessa?

  3. Quais direitos e proteções o usuário realmente possui?



Para quem está começando no universo das criptomoedas, essa distinção é mais importante do que escolher rapidamente uma moeda. Antes de pensar em rendimento ou valorização, é preciso entender o instrumento, sua finalidade e os riscos envolvidos.



Aviso: este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de compra, venda, custódia ou utilização de qualquer stablecoin. Regras, produtos e riscos podem variar conforme o país e mudar com o tempo. Consulte fontes oficiais e profissionais qualificados antes de tomar decisões financeiras.



Referências

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